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Festas em Honra de Nª Srª da Saúde
São João das Lampas

A Romaria de Nossa Senhora da Saúde

O culto a Nossa Senhora da Saúde surgiu na Península Ibérica por volta do Século XII, com o aparecimento da Peste Negra. A primeira invocação a Nossa Senhora da Saúde no nosso país é a do Martim Moniz em Lisboa com a capela a si dedicada no século XIV.

O culto a Nossa Senhora da Saúde na Paróquia de São João das Lampas parece ser dos mais antigos nesta região, logo a seguir ao do Martim Moniz, pensando-se ter sido iniciado no século XVI. Pelo menos, em 1677, surgem referências à existência de uma Irmandade ou Confraria de Nossa Senhora da Saúde na Paróquia.

A Romaria de Nossa Senhora da Saúde ocorre sempre no primeiro Domingo de Setembro, trata-se da maior festa do Concelho de Sintra e provavelmente a maior do Distrito de Lisboa. Normalmente a festa dura cerca de uma semana, sendo o dia mais importante o primeiro Domingo, onde há Celebração da Eucaristia da Solenidade de Nossa Senhora da Saúde com a Tradicional Procissão.

As Festas de Nossa Senhora da Saúde destacam-se pelo grande fenómeno religioso que concentram em si mesmas. Não se trata apenas de mais uma festa de paróquia como tantas outras que ainda se vão realizando por este país fora, mas sim, de uma festa preparada pela Paróquia de São João Baptista das Lampas para todos os romeiros que a esta se deslocam.

Esta é a festa de toda a zona saloia, e que atravessa os limites geográficos das várias paróquias. Só desta forma se consegue explicar a afluência de milhares de pessoas nesta altura do ano. Nossa Senhora da Saúde é simplesmente mais uma invocação de Maria Santíssima na nossa paróquia, mas algo a faz diferir das outras! Qual a diferença não se sabe.

Apenas se observa a grande chegada de doentes e pessoas mais necessitadas de uma ou outra graça, vários vão sendo ao longo dos anos os testemunhos das graças alcançadas pela intercessão de Nossa Senhora da Saúde.

O movimento e devoção dos romeiros a Nossa Senhora da Saúde em São João das Lampas está bem patente na verdadeira enchente que atinge o largo principal e as ruas que o ladeiam durante o Domingo à tarde. A igreja transborda de fiéis para a Celebração da Eucaristia da Solenidade de Nossa Senhora da Saúde ou para, após o regresso da Procissão ao templo cumprirem as suas promessas a Nossa Senhora.


As Promessas e os Cargos

Relativamente às promessas a Nossa Senhora, estas assumem diversas concretizações, que se apresentam de seguida:

  • Nas oferendas colocadas no templo, oferendas estas que podem ser monetárias, e normalmente até de valores avultados, ou nas dádivas de ouro que está colocado na imagem (em quantidade bastante elevada);
  • Nas orações pessoais e celebração das Eucaristia durante todos os dias da festa;
  • Nas inúmeras velas que são queimadas junto do queimador do templo;
  • Nas peças de cera (que tentam simbolizar as graças recebidas);
  • Ou nos cargos.

Possivelmente, os cargos são o expoente máximo das promessas a Nossa Senhora, sendo estes cargos exclusivos de algumas zonas saloias de génese mais rural de Sintra.

Os cargos não são mais do que armações com fogaças, que nesta zona são uma espécie de pão doce com uma forma de roda dentada, feitos de uma massa que demora bastantes horas a levedar e outras tantas a cozer em forno de lenha, trabalho este todo feito de forma manual.

A armação que suporta os cargos é de madeira, e leva três pisos de fogaças que são colocadas verticalmente em pisos de quatro unidades, no centro são colocados três cepos (bolo igual à fogaça, mas com uma forma de roda perfeita) um por cada piso de fogaças. Após a disposição dos bolos toda esta armação é enfeitada com flores e fitas de pano coloridas dispostas na vertical, de forma a não ficarem visíveis as fogaças. No topo do cargo é colocada uma maça que serve de suporte para a ornamentação superior.

Estes cargos após a ornamentação pesam normalmente cerca de 20 Kg, e destinam-se a ser transportadas à cabeça por mulheres durante toda a Procissão, em sinal de agradecimento a Nossa Senhora. Há quem ofereça um cargo após a obtenção de determinada graça e há quem simplesmente o faça por rotina anual em sinal de agradecimento.

Ainda sobre aos cargos, era comum ver-se passar nas localidades da paróquia que ficavam a caminho da sede da mesma (São João das Lampas) no domingo da festa da parte da manhã, as mulheres com os seus cargos à cabeça encaminhando-se para a Igreja Paroquial. Nos últimos anos o número de cargos em cada procissão tem rondado as vinte unidades, o que para além de demonstrar o fervor religioso, confere um bonito e harmónico quadro de abertura da Procissão como também pode ser demonstrado pelas fotografias seguintes.

No início as fogaças não eram este pão doce já referido, mas sim, pão normal. Com o passar dos anos é que se tornaram no pão doce. No fundo, refletem o agradecimento pelas colheitas obtidas, principalmente no que aos cereais diz respeito. Não é em vão que as festas se realizam na primeira semana de Setembro.

É nesta época que existia uma breve paragem no trabalho do campo, as colheitas dos cereais estavam feitas, e só lá mais para meados do mês é que se começariam as vindimas. O povo saloio não era fervorosamente católico a ponto de frequentar regularmente a Eucaristia, mas havia momentos chave da sua vivência religiosa e esta época do ano era a altura de agradecer por tudo o que a terra tinha proporcionado.

Um outro aspeto curioso do culto a Nossa Senhora da Saúde nesta paróquia nas últimas décadas e que também demonstra o apego à terra e à ruralidade tem a ver com as oferendas de cereais (principalmente o trigo) e azeite, hábito que já quase desapareceu nos últimos tempos. Era comum serem ofertados sacos de trigo e garrafas de azeite à Igreja, o primeiro para o originar o pão e o segundo para proporcionar a iluminação nas lamparinas. Com o passar dos anos estes hábitos desapareceram, mas entre as faixas etárias mais antigas ainda há quem ofereça para a festa o valor monetário de um saco de trigo ou de uma garrafa de azeite, para perpetuar as promessas de antigamente.


A Procissão e os Rituais Religiosos

A Romaria compreende a Eucaristia Solene da Festa de Nossa Senhora da Saúde celebrada no primeiro Domingo de Setembro a partir das 15 horas na Igreja Paroquial, nesta Celebração é feita a Bênção dos Cargos que depois integrarão a Procissão que se começa a formar logo após a Eucaristia.

A Procissão inicia com as crianças que transportam cestos com bolos redondos feitos com a mesma massa das fogaças, que seguidamente são levadas nos cargos. Após os cargos surge a primeira banda filarmónica, que antecede depois todo o cortejo de estandartes e andores com as imagens de todos os padroeiros dos locais de culto da paróquia, e das imagens veneradas na Igreja Paroquial, perfazendo um total de 15 andores.

O andor que se destaca é o de Nossa Senhora da Saúde quer pelo ouro que a imagem transporta e reluz bastante, quer pela quantidade de pessoas que o seguem em penitência.

Por fim segue o Pálio com o sacerdote que transporta o Santo Lenho, e as entidades oficiais que antecedem a segunda banda filarmónica, terminando a Procissão com a elevada quantidade de Povo que acompanha Nossa Senhora nesta caminhada pelas ruas de São João das Lampas, ao som dos acordes das bandas filarmónicas e dos sinos que são tocados na torre da Igreja Paroquial.

A meio do percurso há uma breve paragem na Ermida do Espírito Santo onde se ecoa um cântico de homenagem a Nossa Senhora. No regresso ao templo, a Bênção é dada no adro da Igreja perante todos os participantes na Procissão após a qual, tudo se recolhe para o interior da Igreja Paroquial. No fim, as mulheres com os Cargos vão junto do altar onde fica colocada a imagem de Nossa Senhora da Saúde oferecer as suas orações e o Cargo transportado.

Os cargos oferecidos são depois desmontados e procede-se à venda das fogaças e dos bolos. Após a Procissão tem início o concerto das bandas filarmónicas, que só termina pela noite dentro com uma espetacular Sessão de Fogo Preso e de Artifício. Durante todos os dias da festa existe a Celebração da Eucaristia, sendo que cada dia há uma intenção específica para a qual se focalizam todas as preces.


A Vertente Lúdica e Recreativa

Se do ponto de vista religioso as Festas de Nossa Senhora da Saúde são o expoente máximo do catolicismo da zona saloia, do ponto de vista mais lúdico/recerativo volta a atingir essa classificação também. São João das Lampas tem um espaço privilegedo para a realização destas festas. O fantástico Largo de São João das Lampas, que durante todo o ano oferece o seu amplo relvado a quem o visita, mas na altura das festas esse mesmo espaço é utilizado para a montagem de todos os divertimentos, dos espaços de restauração, dos vendedores ambulantes e dos artesãos que querem expor a sua arte nestas festas.

A meio do enquadramento entre o largo relvado e a Igreja Paroquial existe o largo do coreto cujo piso é a tradicional calçada portuguesa, espaço privilegedo para a parte cultural das festas, desde os concertos, os tradicionais bailes e muitas outras atividades.

O programa das Festas de Nossa Senhora da Saúde tenta ser sempre o mais diversificado possível, apresentando uma oferta compatível para todos os tipos de visitantes, o que não é difícil dado o elevado número de dias de festa, mas que nos tempos que correm se torna muito difícil dadas as enormes dificuldades financeiras que o País atravessa. Desse modo, o programa apresenta artistas conceituados, dj's, bailes, bandas filarmónicas, ranchos folclóricos, entre outros, como motivos da visita às Festas de Nossa Senhora da Saúde.

No que diz respeito aos divertimentos normalmente estes abundam e são quase sempre os mais recentes e sofisticados que existem no país, não existindo no concelho de Sintra nenhuma festa ou feira com tantas diversões.


A Organização das Festas

Estas festas são organizadas pela Paróquia de São João Baptista das Lampas, como manifestação da forte devoção mariana das várias comunidades, desta que é a maior paróquia do Patriarcado de Lisboa, composta por 43 localidades.

Contrariamente ao que muitos pensam, estas festas são feitas por uma comissão de paroquianos que em estreita colaboração com o Pároco estabelecem o programa das festas, criam estratégias de concretização do mesmo e desenvolvem formas de obtenção de fundos financeiros para a execução do mesmo.

Assim sendo, as festas são organizadas por puros amadores que só por amor à terra, imbuídos do espírito cristão, abdicam de algumas horas (e às vezes até são bastantes) da sua vida quotidiana e pessoal para conseguirem desenvolver este projeto já com um longo passado, a fim de honrar os seus antepassados e procurar projetar o nome da sua paróquia.

As Festas de Nossa Senhora da Saúde nunca foram organizadas por associações ou autarquias que de uma forma mais institucional desenvolvem inúmeras feiras ou festas por este país fora. A Comissão de Festas sempre foi constituída por homens e mulheres (festeiros) que de boa vontade e de uma forma totalmente voluntária de dedicam a dar a sua ajuda das mais diversas formas de acordo com a sua maior ou menor sensibilidade para os mais diversos aspetos da realização das festas.

Algo fundamental na composição da comissão é a existência de membros de todas as localidades da paróquia, e que são bastantes, para que se reflita de facto a união e comunhão da mesma. A Festa de Nossa Senhora da Saúde é a festa de toda a paróquia, que surge como o corolário do ano que passou onde já se realizaram todas as festas das várias localidades (excetuando a festa de São Miguel de Odrinhas a 29 de Setembro).

Esta festa como já foi referido era a festa do final das colheitas, nos tempos atuais é a festa que marca o fim das férias, a partida dos veraneantes que visitam a costa Imagem 3 – Um aspeto dos Cargos no início da Procissão Imagem 8 – Um aspeto dos divertimentos no Largo 7 atlântica saloia, a partida dos emigrantes para os seus destinos laborais, o início das aulas para os mais novos.

Por estes motivos, esta festa anual marca um ponto de encontro das famílias, aqui bem patente no almoço de família do Domingo da festa, dos amigos, dos conhecidos e de todos aqueles que visitam São João das Lampas nestes dias. Dito isto, só resta à comissão de festas perceber o peso destas tradições e procurar dignificar as gentes da sua terra e favorecer as condições necessárias para o Louvor e Culto a Nossa Senhora da Saúde.

O Financiamento

O financiamento das festas é feito em cerca de 50% pela população da paróquia, num longo, moroso e desgastante peditório efetuado pelos festeiros em todas as habitações das cerca de quarenta localidades da paróquia.

A outra parte do financiamento é obtida através dos da concessão do espaço da feira para as diversões e restauração, através das atividades exploradas pela comissão, da venda de bolos e das dádivas dos romeiros. Em grande parte, devido à forma de financiamento das festas, estas correm o sério risco de desaparecerem ou serem atingidas pela falta de financiamento.

  1. Em primeiro lugar, já existem enormes dificuldades em constituir uma comissão de festas com um número adequado de pessoas que assegurem a correta realização das mesmas, principalmente sente-se a falta de pessoas para efetuarem os peditórios em todas as localidades da paróquia.
  2. Em segundo lugar, os donativos dados nos peditórios eram mais avultados nas faixas etárias dos 60 anos em diante, e esses vão desaparecendo, ficando os mais novos que têm o mesmo gosto pela festa, mas não contribuem tanto para a realização das festas.

A nível autárquico sempre existiu uma boa relação com os diversos órgãos de soberania, sendo disponibilizados os apoios que vão sendo solicitados e outros.

Evolução Histórica das Festas

As Festas de Nossa Senhora da Saúde nem sempre foram o que são hoje, ou seja, a parte religiosa mantém- se quase inalterada, embora com pequenas mudanças derivadas da própria evolução eclesial.

As alterações mais significativas têm a ver com o programa mais lúdico/recreativo. Se em tempos passados, quase que não havia esta parte das festas, uma vez que as festas quase que não eram mais que a Celebração da Eucaristia no Domingo, ao longo dos anos esta foi aumentando quer devido ao facto do espaço da feira, quer devido ao 8 aumento das presenças dos inúmeros divertimentos e atrações musicais de renome nacional se terem tornado imagem de marca das Festas de Nossa Senhora da Saúde, aliados a um aumento das condições do espaço da festa, das infra-estruturas de apoio e da aquisição de prestigiada reputação destas festas no concelho de Sintra.

As festas passaram de uma duração média de 3 a 4 dias para uma duração de 6 dias, e posteriormente passou para 10 dias, que ainda hoje se mantém.

As Festas de Nossa Senhora da Saúde são como já foi referido as maiores festas anuais do Concelho de Sintra em afluência de público, mas também em dias de duração. Só é ultrapassada pelas Festas de Nossa Senhora da Nazaré que ocorrem de 17 em 17 anos ou de, Nossa Senhora do Cabo Espichel que ocorrem de 26 em 26 anos.

São por isto mesmo um grande motivo de orgulho para as gentes de são João das Lampas. Desde 1976 que estas festas se fazem ininterruptamente. Anos houve em que existiram muitas dificuldades para a realização das mesmas, correndo mesmo o risco de não se chegarem a realizar, mas o empenho da população e a ajuda divina foram mais fortes e fizeram com que em 2012 as festas começassem a ser o que são hoje, pretendendo-se perpetuar agora por muitos e longos anos.

Nos últimos anos as festas proporcionaram a obtenção de verbas para financiamento dos arranjos do teto do altar-mor, do altar-mor, dos altares laterais e do teto da nave da Igreja Matriz, tal como o arranjo do adro da mesma.


O Espólio das Festas de Nossa Senhora da Saúde

De entre as recordações das Festas de Nossa Senhora da Saúde destacam-se:

  • Os programas de festas dos anos anteriores, de 1976 em diante.
  • As medalhas dos mordomos, estas são medalhas que os homens e mulheres colocavam na lapela no dia da festa. As medalhas eram de tamanhos e cores diferentes, que refletiam a contribuição dada por essa pessoa para a festa, havendo a distinção de 1º e 2º mordomo.
  • Existe ainda um enorme espólio de fotografias, que demonstra as festas de antigamente no que diz respeito aos usos e costumes, ornamentações, organização do espaço, entre outros aspetos.

As Festas na Paróquia de São João Baptista das Lampas

Durante o ano cada localidade festeja o seu padroeiro. Em alguns anos as festas não passaram da Celebração da Eucaristia, mas nos últimos anos já se conseguiram formar comissões de festas que aceitassem realizar pequenas festas de 1 a 3 dias, que têm corrido em pequena escala, mas com sucesso e muita dignidade.

Seguidamente enumeram-se as festas que ao longo do ano se realizam na Paróquia de São João Baptista das Lampas:

  • Nossa Senhora da Esperança, nas localidades de Fontanelas e Gouveia no 2º Domingo da Páscoa;
  • São João Baptista, Padroeiro da Paróquia, no Domingo mais próximo do dia 24 de Junho;
  • Nossa Senhora da Consolação, nas localidades da Assafora, Catribana e Cortezia no primeiro Domingo de Agosto;
  • São Lourenço e Santa Susana, na localidade de Santa Susana, a 10 e 11 de Agosto, respetivamente;
  • Nossa Senhora da Assunção, na localidade de Alvarinhos no dia 15 de Agosto;
  • Santa Maria, nas localidades de Magoito, Tojeira, Bolembre e Arneiro dos Marinheiros no dia 15 de Agosto;
  • São Miguel Arcanjo, na localidade de São Miguel de Odrinhas, Odrinhas e Barreira no Domingo mais próximo do dia 29 de Setembro;
  • Nossa Senhora da Nazaré do Círio da Prata Grande, de 17 em 17 anos, permanecendo a Imagem Peregrina durante um ano na Paróquia, tendo estado nesta Paróquia a última vez em 2020- 2021 e regressando em 2037;
  • Nossa Senhora do Cabo Espichel do Círio dos Saloios, de 26 em 26 anos, permanecendo a Imagem Peregrina durante um ano na Paróquia; tendo estado nesta Paróquia a última vez em 1998- 1999, tendo regressado em 2024 e saído em 2025..